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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

6 - “EU GOSTO QUANDO...”

Muitos casais compartilham da crença segundo a qual se deve ser absolutamente franco, apontar tudo aquilo que o outro faz e que incomoda, “discutir a relação”, como se estivessem sempre “dando choques” um no outro a fim de “corrigir” problemas e, talvez até, de “corrigir” o próprio parceiro.
Assim como muitas outras crenças que as pessoas têm com relação à vida e aos relacionamentos, e que costumam ser fonte de dificuldades, esta merece um trabalho de revisão e questionamento. Muitas destas crenças foram formadas quando não tínhamos maturidade suficiente para avaliá-las de forma crítica, tendo sido herdadas de nossos pais, inculcadas pela mídia, pelos modelos que a nossa cultura valoriza e até mesmo pelas histórias infantis que ouvimos quando crianças.
O primeiro ponto que é preciso ressaltar nesta forma de lidar com problemas é que ela é aversiva, causa stress, pode colocar o outro na defensiva, uma vez que ele poderá sentir-se criticado. Pode também gerar desejo de vingança, o que ocorre quando o que foi criticado começa a levantar o histórico do parceiro, lembrando-o de todas as vezes em que ele também se comportou de forma inadequada. E então a história pode se tornar uma bola de neve, ou mesmo um padrão no relacionamento a dois, uma seqüência condicionada de eventos que ocorre automaticamente, sem que os parceiros se dêem conta.
Além disso, esta estratégia geralmente não cria novos comportamentos adequados. Diríamos que, “com sorte”, ela talvez iniba os comportamentos inadequados, mas não cria nada em seu lugar.
A questão que se coloca é: será que tudo o que incomoda deve ser comunicado? Será que a comunicação verbal é a única estratégia para estes casos? O que acontecerá se não for comunicado? E, da mesma forma, o que acontecerá se for comunicado?
Estas verificações são importantes porque normalmente as pessoas ficam condicionadas a determinados processos de solução de problemas, ficam presas a eles de forma que sua criatividade fica completamente bloqueada, ou seja, acabam agindo do jeito que sempre agiram. Às vezes nem param para observar que a estratégia que vem sendo adotada por longos anos nunca produziu resultados positivos.
Uma outra forma de lidar com comportamentos que desagradam é reforçar positivamente o comportamento oposto, se possível, no momento em que ele ocorre. Assim, se o marido se atrasou para o jantar, a esposa poderia, nos dias em que ele chega pontualmente, fazer um comentário positivo, que expressasse sua alegria por ele haver chegado no horário combinado.
Também em relação à vida sexual é possível usar a estratégia sugerida acima. É muito comum que os casais se critiquem com frases do tipo “Por que você nunca...”, ou então “Eu odeio quando...”. Mudando-se a frase, teríamos: “Eu gosto quando...”, sinalizando ao parceiro aquilo que é desejável, ao invés de cobrá-lo ou criticá-lo.
Desta forma, se o parceiro faz o que o outro pede, fica com a impressão de que está apenas repetindo algo que já fazia, que é capaz. Ou seja, sua auto-estima é protegida. De forma inversa, quando o parceiro faz o que o outro exige e cobra, poderá ficar com a impressão de que está assinando uma confissão de culpa, concordando com a crítica e com a acusação de ser inadequado, incompetente, etc.
Muitas outras crenças são geradoras de conflitos entre os casais e merecem uma avaliação crítica, como, por exemplo: “os casais devem fazer tudo junto”, “não deve haver nenhum segredo entre marido e mulher”, “se não há ciúme, é porque não há amor”, dentre outras.
À guisa de conclusão, vale lembrar que, mais que um simples jogo de palavras, a estratégia aqui sugerida precisa se constituir numa postura diante da vida, num modo de ser no mundo, que não se restringe unicamente ao relacionamento afetivo, mas que se estende a todos os relacionamentos e situações.

sábado, 17 de janeiro de 2009

5 -PAIXÕES

Responda rápido e sinceramente: o que você tem feito em sua vida que lhe dá prazer? Com que freqüência você tem tido momentos de prazer?
Vamos comparar estes momentos de prazer ao ato de respirar. Você é do tipo de pessoa que "respira" no final de semana, daí prende a respiração durante toda a semana e só volta a respirar no próximo final de semana? (Ou, o que é pior, daqui a um ano, nas próximas férias?)
Vamos agora pensar na palavra LAZER. Qual a importância que você atribui ao lazer em sua vida? Para você (como para muitos) lazer é supérfluo? É a primeira coisa a ser riscada da lista quando o tempo (ou o dinheiro) está escasso?
Pelo que você tem paixão em sua vida? Aquelas coisas que despertam seu interesse, que fazem você parar o que está fazendo para poder prestar atenção a elas, que fazem com que seus olhos brilhem, seu coração se alegre e seu rosto se ilumine? Pode ser que você se sinta assim em relação ao seu time favorito, ou em relação a algum hobby, ou algum assunto sobre o qual esteja muito interessado, ou em relação a pessoas de quem você gosta muito.
Há pessoas que respondem a esta questão da seguinte forma: "Não sei o que me dá prazer. Ultimamente não tenho feito nada que me dê prazer".
A incapacidade de sentir prazer é chamada de anedonia e faz parte de alguns quadros psiquiátricos, principalmente quadros de depressão. Neste caso, a pessoa deixa de sentir prazer, quer em novas atividades ou em atividades que antes eram prazerosas. É apenas um dos sintomas da depressão que, como se sabe, é uma doença que precisa ser tratada, geralmente com medicação ou psicoterapia, ou ambas - um profissional (médico ou psicólogo) é quem poderá avaliar a necessidade de cada caso.
Excetuando-se esta situação acima, em que a falta de prazer se deve a uma doença, há outros casos mais simples, dentre os quais a maioria de nós provavelmente se encaixa.
Numa primeira possibilidade, não é que não tenhamos capacidade de sentir prazer, mas sim que não estejamos nos permitindo momentos de prazer. Sabemos do que gostamos, mas por várias razões (por falta de tempo, ou de dinheiro, ou por acomodação, ou por medo, ou por timidez) não vamos em busca disso.
Uma outra possibilidade ocorre quando, ao longo dos anos, em virtude das obrigações que nos impomos, vamos restringindo nossos interesses, limitando nossa vida ao estritamente necessário, usando nossa energia para as tarefas que julgamos "importantes", e abandonando completamente aquelas consideradas "supérfluas" (lazer, prazer). Ficamos tão focados em nossas obrigações que nem percebemos o que está ao nosso redor. Daí alguém nos pergunta: "O que você achou da fachada daquele novo restaurante perto de sua casa?" E então respondemos: "Que restaurante? Não vi nenhum restaurante perto de casa". Não prestamos mais atenção às novidades. Olhamos e não vemos. Fazemos sempre os mesmos caminhos. Não nos entusiasmamos, não temos mais aquela curiosidade igual à das crianças, para quem tudo é interessante, tudo chama a atenção. Ficamos completamente "por fora" quando alguém comenta sobre um filme, um livro, um lugar, como se fôssemos de um outro planeta.
Esta estratégia poderia ser considerada como de sobrevivência, pois guarda recursos e energia para o que é essencial. Mas é uma estratégia equivocada. Pois sabe-se que um indivíduo que possui um leque de interesses variado tem maior probabilidade de lidar de forma satisfatória com o stress, tem menos depressão e menos problemas de saúde. Isto ocorre porque, tendo muitos interesses, terá maior probabilidade de ter momentos de prazer ao longo do dia (não apenas nos finais de semana). Estes momentos de prazer, que muitas vezes são breves, permitem que recarreguemos nossa bateria. Considere o seguinte: quando executamos tarefas (resolvemos problemas, superamos obstáculos), gastamos energia. Quando temos momentos de prazer, quando nos permitimos ir em direção àquelas coisas que despertam nosso interesse, repomos energia (recarregamos a bateria). Sendo assim, quem tem um leque de interesses maior, tem mais energia, está sempre com a bateria carregada.
Talvez você esteja pensando: "Meu leque de interesses não anda muito variado..." O que fazer? Ampliar o leque, é claro. "Mas como?" - você pode estar se perguntando. "Não sei do que gosto". Neste caso, uma alternativa seria experimentar novas coisas, a fim de descobrir aquelas que possam ser interessantes para você. Arrisque-se, ouse. Aventure-se por novos caminhos.
Os interesses que temos na vida funcionam como ímãs que nos atraem, que nos impulsionam, nos levam adiante, que nos motivam a sair da cama pela manhã todos os dias. Eles vão recheando nossa vida, alegrando-a, enfeitando-a, dando-lhe um colorido especial.
Aquelas pessoas a que nos referimos acima, que estão sempre com a bateria carregada, fazem ainda algo mais com o "leque" e com os "ímãs": vão intercalando as atividades do dia com breves momentos prazerosos. Por exemplo, se precisam ir de ônibus até o trabalho, certamente vão levar consigo algo que possa tornar a viagem mais agradável: um bom livro, uma revista, um CD Player, I-Pod ou mesmo um radinho de pilhas. Se o chefe solicitar um extenso relatório, elas farão várias pausas: vão navegar na Internet, vão à sala ao lado, conversar um pouco com o colega, vão tomar um cafezinho. Enfim, divertem-se com facilidade, gostam de muitas coisas, e assim garantem um suprimento constante de energia, de forma a poderem sair do trabalho com energia suficiente para enfrentar um outro compromisso. Bem diferentes daquelas pessoas que "mergulham no relatório" e só param quando conseguem terminá-lo - completamente extenuadas, sem energia para chegar em casa, conversar com o marido (esposa) e brincar com os filhos. Estas pausas, diferentemente do que se pensava há um tempo atrás, não "roubam" tempo do trabalho, pelo contrário, aumentam a produtividade. Tanto é que muitas empresas, sabendo disso, implantaram pausas após o almoço (com a possibilidade inclusive de tirar uma soneca), horário flexível, cabeleireiro no local de trabalho, sala de ginástica, etc..
Uma última sugestão: adquira o hábito de ter sempre uma fila de coisas interessantes para fazer quando tiver tempo. Isso significa que se você vai a uma livraria e vê um livro interessante, se puder, compre-o. Não use como desculpa "Ah! Eu não vou ter tempo mesmo..." Compre e reserve. Faça o mesmo com outras coisas: filmes, coleções, CDs, etc. Você pode colocar nesta fila, "mentalmente", outras coisas como lugares que você quer conhecer, cursos que deseja fazer. De forma que as coisas interessantes sejam sempre em maior número do que as horas de lazer que você tem (e você deve, precisa e merece ter muitas). Assegure-se de que em sua fila sempre existam muitas opções interessantes e prazerosas esperando por você. Tanto que se você ficasse um mês sem trabalhar, teria com o que se divertir todos os dias, não seria pego de surpresa ("E agora? O que eu faço?").
Hoje falamos de respiração, bateria, leque, ímã, fila... Sem contar que em artigos anteriores falamos sobre pizza, projeto, intersecção, bússola. Esperamos que a "bagagem" de recursos internos de cada leitor esteja sendo ampliada a fim de que tenha à sua disposição novas "ferramentas", que lhe permitam novas maneiras de ver a vida, resolver problemas, atingir objetivos e, é claro, ser feliz.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

4 - A BÚSSOLA INTERIOR

Sabe aqueles momentos de sua vida em que você não sente o tempo passar? Ou em que parece que o tempo passou rápido demais e então você diz: "Ah! Que pena que já acabou"? Em que você fica melhor do que estava antes? Momentos que, logo depois, já o deixam com saudade, querendo em breve "repetir a dose"? E que fazem com que você se envolva completamente naquilo que está fazendo e, por alguns instantes, se esqueça de tudo o mais à sua volta?
Pode ser que você sinta isso quando vai ao cinema, ou quando pratica um esporte, ou quando se reúne com amigos, ou quando lê um bom livro, ou quando freqüenta sua igreja, ou quando está com a pessoa amada, ou com seus filhos, ou quando está trabalhando (se você gosta do que faz).
Agora uma outra situação: sabe quando você faz uma escolha na vida (um emprego novo, um curso, uma compra importante, um relacionamento) e depois de algum tempo surge uma insatisfação, como se "seu coração" estivesse lhe dizendo que sua escolha não foi boa? Que aquilo "não é para você"? E então você desiste daquela escolha, muda o rumo das coisas, e daí seu coração se aquieta, se alegra? E você finalmente se sente em paz?
É como se, internamente, possuíssemos uma espécie de "bússola" que nos guia, nos orienta, nos mostra qual caminho é bom para nós. E ela faz isto justamente através de nossas sensações, da "voz do nosso coração", de nossas sensações de prazer e desprazer, de paz ou de inquietação, de realização ou insatisfação. É como se esta bússola fizesse com a gente aquela brincadeira do nosso tempo de criança: "Tá esquentando, tá quente... Ih! Esfriou..."
Observe como uma criança é totalmente fiel às suas sensações. Geralmente, ela se afasta rapidamente do que não gosta, aproveita intensamente o que gosta, e não tem dificuldades para distinguir entre as duas situações.
Ao longo dos anos, é comum nos distanciarmos destas sensações, que ficam como que desconectadas, alheias a nós, como se criássemos um abismo entre elas e nós. É freqüente em psicoterapia encontrar pessoas desconectadas de suas emoções e sensações. São pessoas que às vezes se ferem sem gravidade e só o percebem bem mais tarde, ou que se esquecem de almoçar, de beber água quando estão com sede, de se agasalhar quando estão com frio. São também pessoas que colocam o bem-estar dos outros acima do seu próprio, que se preocupam em não deixar que o outro sofra mesmo que para isso ELAS tenham que sofrer. Que não dão atenção aos sinais de cansaço que seu corpo emite, ou às dores e sintomas que, na verdade, são recados do corpo, e cuja intenção é restabelecer a saúde e o equilíbrio. Por exemplo, às vezes uma dor persistente nas costas sinaliza hábitos inadequados, postura inadequada. Ou então problemas gástricos sinalizam uma alimentação que não faz bem àquela pessoa. Ou, às vezes, um problema de saúde qualquer sinaliza simplesmente que aquela pessoa está infeliz naquela situação. Lembro-me de um filme em que um jovem imigrante vai trabalhar em uma grande loja e, pela primeira vez na vida, começa a ter uma forte dor de cabeça, todos os dias. Depois de alguns meses vivendo este transtorno, ele pede demissão e a dor de cabeça sara no mesmo dia. Nunca mais ele tem dor de cabeça. Demorou alguns meses para que ele "ouvisse a voz do próprio coração" (e os recados do corpo) e tomasse uma atitude.
É comum que as pessoas fiquem "brigando" com a voz do coração. Por exemplo, quando se obrigam a fazer coisas de que não gostam, ou quando se obrigam a permanecer numa situação que há muito as desagrada: um emprego de que não gostam, um casamento que já não traz felicidade. Geralmente são pessoas que "se anestesiam" para não sofrerem muito e assim poderem ir sobrevivendo. Ou então compensam a insatisfação de outras formas: se atiram de cabeça no trabalho (para não pensar no casamento), ou na malhação, ou adquirem vícios (beber, fumar, etc.). O resultado é sempre insatisfação, infelicidade e distanciamento em relação às próprias emoções e, o mais importante, distanciamento em relação ao propósito de suas vidas, à sua razão de existir, à sua MISSÃO, um conceito que definiremos num artigo futuro e que, aqui, não tem conotação religiosa.
Outras conseqüências para uma pessoa que passou a vida toda andando na contramão do próprio caminho, do caminho ditado pelo seu coração, podem ser depressão, ou outro tipo de doença, amargura, desesperança, falta de vivacidade, de vibração e entusiasmo.
Retomamos agora a questão proposta em um artigo anterior: o que é liberdade? Liberdade é não ter planos e deixar que a vida nos leve ("Deixa a vida me levar...")? É ir ao sabor do vento? Ou liberdade é justamente o contrário: escolher para onde se quer ir (e batalhar por isso)? Podemos acrescentar a esta questão as idéias discutidas hoje e assim ampliar o conceito: talvez liberdade seja guiar-se pela voz do coração, pela bússola interior, para saber aonde ir e então poder fazer planos (ter um Projeto de Vida, como explicamos num artigo anterior) para chegar lá. É uma questão que nos convida à reflexão (e cujas conclusões aqui propostas não se pretendem definitivas, estando abertas à discussão).
E você, leitor, o que pensa a respeito? O que sente quando pensa nesta questão? Como tem usado sua bússola interior? Como lida com suas sensações e emoções? Dá atenção a elas, procura entender qual o recado que têm para você, ou procura anestesiá-las? Por exemplo, quando está triste (ou insatisfeito, ou com raiva, etc.), dá atenção a sua tristeza, procurando fazer algo em relação ao que a está causando? Da mesma forma, quando você sente algum tipo de dor, procura saber o que seu corpo está sinalizando (hábitos inadequados, falta de repouso, etc.)? Ou "passa batido", esperando que seu corpo "grite" para então tomar uma providência (por exemplo, deixando que a dor se torne insuportável para então procurar um médico)? Você se deixa guiar pela voz do coração? Confia nela? Tem se permitido bons momentos (aqueles em que não percebe o tempo passar)? Ou os bons momentos são raros (só nos finais de semana ou nas férias)? Tem a sensação de estar andando no "seu caminho", aquele que é bom para você? Ou sente que há muito se afastou dele?
Daremos continuidade a este assunto no próximo artigo, em que falaremos a respeito de PAIXÕES.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

3 - CASAMENTO: FUSÃO OU INTERSECÇÃO?

No artigo anterior, falamos sobre como fazer um Projeto de Vida e encerramos com a pergunta: um casal deve fazer um único Projeto de Vida, um Projeto que sirva para marido e mulher, ou cada um deverá fazer o próprio, individualmente?
Certamente, o leitor que acompanhou nossos artigos anteriores, em que enfatizamos a importância de dividirmos nossa "pizza" (nossa vida) em fatias iguais, saberá a resposta.
Algumas pessoas vêem o casamento como um processo de fusão. Duas pessoas que se unem, que se fundem uma na outra, de forma a desaparecer o "eu" e daí para a frente só existe o "nós". Neste caso, trata-se de uma mudança profunda, não apenas no nível do comportamento, mas no nível da identidade. Vêem-se como casal, não mais como pessoas, separadas, como se sua auto-imagem também houvesse sofrido uma "mutação". Esquecem-se de como pensavam antes do casamento, que idéias tinham, que objetivos tinham. É como se tudo isso tivesse sido apagado e uma nova visão houvesse sido gravada por cima.
Uma outra forma de pensar o casamento seria compará-lo a um processo de intersecção. Lembre-se de quando estava na escola e a professora de matemática ensinava: o conjunto A tem como elementos as cores vermelho, amarelo e verde e o conjunto B tem como elementos as cores azul, amarelo e branco. Portanto, o conjunto intersecção é formado pela cor amarela (aquela que é comum aos dois conjuntos). E então a professora traçava um círculo em volta de cada conjunto de forma que um círculo entrava dentro do outro, justamente para representar o elemento (a cor amarela) que pertencia aos dois conjuntos ao mesmo tempo.
Um casamento pode ser entendido assim também. Duas pessoas que vão formar uma intersecção entre si (uma área comum, constituída de afinidades, de planos em comum, de coisas que serão compartilhadas) mas que não deixarão de ter intersecções com outras pessoas (afinidades, objetivos, hobbies), quer com amigos, colegas, pessoas com quem compartilhem sonhos, gostos, hábitos, por exemplo, os amigos do futebol, da academia, os amigos do curso de espanhol, do grupo de estudos, os torcedores do seu time favorito, etc.. E é bom que seja assim, pois tais intersecções permitem que cada um tenha novidades para compartilhar com o outro, experiências para serem trocadas, o que enriquece o relacionamento.
A esta imagem da intersecção vamos acrescentar ainda uma outra imagem: a das fatias da pizza. O que acontece com as fatias da pizza depois que uma pessoa se casa?
O ideal seria que cada um continuasse a cuidar das próprias fatias (amigos, lazer, espiritualidade, cidadania, trabalho, etc.) sem se esquecer, é claro, de cuidar da fatia do casamento. Porém lembrando-se que o casamento é uma das fatias - não é a pizza toda.
Todavia, você, leitor, já deve ter observado que existem pessoas que, ao se casarem, mostram-se extremamente vorazes em relação à pizza do companheiro: não se contentam em ser uma fatia na vida do outro, querem a pizza toda. Começam a "invadir" os espaços do outro (as fatias destinadas a amigos, esporte, lazer, família, etc.) e a tomar posse, a reivindicar estes espaços como seus. Chegam a exigir que o outro abandone hábitos, amigos, atividades, reclamando para si a atenção e o tempo que ele lhes destinava. O que é lamentável e destrói o amor. Transforma o amor, o casamento, em prisão. Cada um é condenado a viver para sempre e exclusivamente na presença do outro. Ficam acorrentados um ao outro. Acreditam que após o casamento deverão fazer absolutamente tudo juntos.
Rubem Alves tem uma história muito bonita sobre isso, A Pipa e a Flor. Na história, a pipa se enamora de uma flor e a ela entrega o fio em que está presa. Todos os dias a pipa voa para o alto e volta ao encontro da flor, cheia de novidades. Até o dia em que a flor, sentindo ciúme e inveja da pipa, decide encurtar o fio até prendê-la junto a si. É uma história que fala que o amor se nutre justamente da incerteza, dos espaços do outro que não me pertencem e que me fascinam, que me fazem querer conquistá-los. Pois quando nada mais houver por conquistar, quando não mais houver dúvidas se o outro poderá ou não voltar para casa um dia, acabou-se o amor. Segundo este ponto de vista, portanto, aquela velha idéia de um casal ir morar para sempre numa ilha deserta deve ser o equivalente mais próximo do inferno. Não seria romântico, seria terrível.
Logo, concluímos que uma pessoa, ao se casar, terá um novo papel em sua vida, o papel de esposa (marido), mas deveria continuar exercendo seus outros papéis: o de amiga de sua amiga, vizinha de sua vizinha, prima de sua prima, filha de seus pais, irmã, colega, aluna, professora, torcedora de seu time, esportista, cantora, poetisa, voluntária e etc. Mesmo quando nascerem os filhos, o ideal seria que não ficasse o tempo todo no papel de pai/mãe, até mesmo diante dos filhos. É bom para os filhos que eles percebam que não são donos de todo o tempo dos pais (a pizza toda), que os pais têm suas intersecções com outras pessoas, têm suas atividades e objetivos, e que os filhos não fazem parte de todos os seus momentos (assim como o cônjuge também não faz). O pai ou mãe que age assim fornece ao filho um modelo saudável de como gerenciar a própria vida, de como estabelecer vínculos saudáveis com pessoas, de como pertencer a vários ambientes. É aquele pai (ou mãe) que vai dizer ao filho: "Hoje não posso brincar com você porque vou sair com meus amigos. Mas podemos combinar para amanhã. O que você acha?". Ensinam um amor desapegado, que ama e confia, que permite ao outro ir e vir, que não reivindica espaços que não lhe pertencem. E, o mais importante, ensinam que os filhos não necessitam ter a pizza toda para que se sintam amados.
Portanto, recomenda-se que os casais façam um Projeto para o casamento, tracem planos em conjunto, para o casal, para a família, mas não deixem de ter cada um seu próprio Projeto de Vida, lembrando-se que além de marido/esposa, pai/mãe, cada um continua a ser uma pessoa, com direito a sonhos, objetivos, ideais, PAIXÕES.
No próximo artigo falaremos sobre a bússola interior, algo que nos guia, que nos mostra qual é nosso caminho, o que é bom para nós.

domingo, 4 de janeiro de 2009

2 - PROJETO DE VIDA

No artigo anterior comparamos nossa vida a uma pizza, cada pedaço correspondendo a uma área de nossa vida, para explicar o que é Qualidade de Vida.
Mas o que fazer quando, ao avaliarmos nossa "pizza", constatamos que há poucas fatias? Que faltam fatias importantes (como espiritualidade, amigos, lazer, cidadania, etc.)? O que fazer quando determinadas áreas de nossa vida invadiram completamente o espaço pertencente a outras áreas, a outras "fatias", que ficaram "espremidas", ou que acabaram desaparecendo completamente? Por exemplo, aquele profissional que duas vezes por semana praticava esporte com os amigos e que após ser promovido na empresa (aumentando o número de horas trabalhadas), reduz para uma vez e depois para nenhuma?
Para organizar as coisas, vamos propor duas estratégias.
A primeira é uma avaliação bem simples. Você só vai precisar de papel e lápis. Tudo pronto? Então vamos lá. Você vai listar todas as áreas de sua vida: 1- FAMILIAR (inclui sua família de origem, pais e irmãos, e sua família atual, marido/esposa e filhos), 2 - AFETIVA (relacionamento amoroso), 3- EMOCIONAL (como administra suas emoções, como se sente: feliz, triste, deprimido, ansioso, etc.), 4 - PROFISSIONAL (sua profissão, se está satisfeito com sua área de atuação, com os resultados de seu trabalho, se tem uma carreira planejada), 5- INTELECTUAL (cursos, leituras, novas aprendizagens, manter-se atualizado), 6- SEXUAL (qualidade e quantidade), 7- FINANCEIRA (como administra seu dinheiro, como equilibra seu orçamento, como investe, poupa, planeja gastos), 8- SOCIAL (amigos, grupos aos quais pertence, eventos sociais aos quais comparece), 9- ESPIRITUAL (em que você acredita, se está satisfeito com suas crenças nesta área, com sua forma de viver e expressar estas crenças - o que não implica necessariamente em freqüentar uma determinada religião ou igreja), 10- LAZER (aquelas coisas que você faz unicamente para se divertir, por prazer, diversão, para "recarregar a bateria": inclui hobbies, como dançar, fazer coleções, cantar, tocar instrumentos musicais, etc.), 11- CIDADANIA (as contribuições que você dá ao seu bairro, à sua cidade, ao seu país, o que você faz para ajudar o próximo, como você coloca aquilo que sabe ou que possui a serviço do próximo, de uma causa), 12 - FÍSICA (sua aparência, como está sua saúde, seus cuidados com alimentação, sono, exercícios).
Você vai agora atribuir uma nota, de zero a dez, a cada uma destas áreas de sua vida. Avalie sinceramente cada área e dê uma nota. Recomenda-se que você não seja nem crítico demais (dando nota zero a todas as áreas, por exemplo), nem otimista demais - ou presunçoso (dando nota dez a todas). Seja realista.
Você acabou de fazer um balanço de sua vida, um diagnóstico, que vai permitir-lhe saber como anda sua "pizza", quais as áreas críticas, o que está bom (e que, portanto, deve ser conservado) e o que precisa urgentemente ser melhorado.
Agora vem a outra estratégia: o Projeto de Vida.
Talvez você queira fazer seu Projeto de Vida por escrito (seria o mais indicado). Você poderá fazê-lo na mesma folha em que fez a avaliação, escrevendo brevemente à frente da nota que você atribuiu, ou poderá fazê-lo à parte (algumas pessoas preferem fazê-lo no computador - estas poderão me enviar um e-mail solicitando o Projeto de Vida já formatado, que só precisarão completar), de forma mais detalhada.
Após ter avaliado cada área, ter descoberto quais as áreas que precisam ser melhoradas, você poderá então determinar OBJETIVOS (o que você quer conseguir em cada área, como você quer que elas fiquem daqui a algum tempo), ESTRATÉGIAS (o que você vai fazer para conseguir atingir cada objetivo, para deixar cada área do jeito que você quer) e EVIDÊNCIAS (como você vai saber que atingiu seu objetivo: o que você precisa ver, ouvir, sentir, para concluir que realizou seu objetivo; que provas ou sinais precisará ter para certificar-se de que atingiu seu objetivo).
Por exemplo, imagine que na área do LAZER você vai listar três OBJETIVOS (é melhor ser bem específico e listar poucos objetivos para cada área: três é um bom número): 1- Aprender a tocar violão. 2- Sair mais com amigos. 3- Dançar. Você então poderá passar às ESTRATÉGIAS: para alcançar o objetivo número 1 (aprender a tocar violão), vou procurar um professor. Para alcançar o objetivo número 2 (sair mais com amigos), vou convidá-los mais vezes, aceitar o convite, quando eles convidam, e freqüentar mais ambientes em que possa encontrar amigos (como clubes, por exemplo). Para o objetivo número 3 (dançar), vou entrar num curso e ir a lugares em que possa dançar.
Então vêm as EVIDÊNCIAS: "vou saber que atingi o objetivo número 1 (tocar violão) quando souber tocar uma música inteira olhando na partitura". Aqui é importante observar que é necessário que sejamos realistas e modestos nas evidências. Seria irreal, por exemplo, usar como evidência neste caso "ser um músico profissional" e "tocar numa orquestra ou banda". É preciso dimensionar bem os passos, como se eles fossem os degraus de uma escada. Também não serviria a evidência: "vou saber que estou saindo mais com amigos quando eu tiver um monte de amigos e tiver muitos convites" por ser muito vaga e inespecífica. Quanto é "um monte" de amigos? Quanto é "muitos convites"? Se eu não dimensionar, não vou saber quando atingi o objetivo.As EVIDÊNCIAS têm, portanto, a função de verificar quando o objetivo foi alcançado. É o sinal que confirma que chegamos lá.
Estabelecendo OBJETIVOS, ESTRATÉGIAS E EVIDÊNCIAS para cada área de sua vida, você terá concluído seu Projeto de Vida. E daí? É só isso?
Não, de forma alguma. Você precisará implantar o seu Projeto, o que significa que não há mágica e que você terá de arregaçar as mangas, pôr as mãos na massa e fazer o que precisa ser feito. E de tempos em tempos, precisará refazer seu Projeto, pois as metas alcançadas serão substituídas por novas metas, ou talvez existam metas que deixem de ser importantes e que precisem ser então descartadas. Portanto, o Projeto precisará ser atualizado periodicamente.
Uma pergunta freqüente, quer no consultório, ou em cursos e palestras em que abordo este tema: um casal deveria fazer um único Projeto de Vida? Ou cada um faz o seu? Vamos responder a esta pergunta no próximo artigo, quando abordaremos a questão do casamento e dos papéis que desempenhamos na vida.
Há pessoas que afirmam: "Ah! Eu não gosto de planejar nada. Não gosto de me prender a projetos, gosto de ser livre, de ir ao sabor do vento". A estas pessoas gostaria de propor as seguintes perguntas: Ser livre é não planejar aonde queremos ir? Como diz aquela música "Deixa a vida me levar..."? Ou aquela frase "Se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve"? Ou ser livre é justamente o contrário: poder planejar e escolher para onde vamos? O que é afinal liberdade? É uma reflexão interessante, que retomaremos numa outra ocasião.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

1 - A PIZZA













Uma forma atual de se explicar o que é Qualidade de Vida é comparar nossa vida a uma pizza. Há pessoas que dedicam a "pizza toda" (a vida, o tempo, os recursos) a uma única meta, por exemplo, ao trabalho. São aquelas pessoas que vivem para o trabalho, que só falam de trabalho, que se esquecem das outras áreas da vida. Há outras que se dedicam de forma exclusiva ao casamento (ocorre mais freqüentemente com as mulheres, talvez por fatores culturais que discutiremos num outro artigo), que após o casamento abandonam amigos, lazer, família, religião, para dedicar-se aos assuntos da casa, para cuidar do marido/esposa, etc.. Há também as pessoas que se dedicam exclusivamente à religião, que tornam-se obcecadas pela questão religiosa, aquelas que normalmente não conseguem conversar sobre outros assuntos ou que usam a religião para explicar todo e qualquer fato. Há pessoas que fazem do centro de suas vidas o culto ao corpo e à beleza física, cuja vida toda se organiza em torno deste objetivo, com muitas horas diárias utilizadas para esta finalidade, restando pouco ou nenhum espaço para outras áreas, para outras metas. Enfim, são aquelas pessoas que apostam todas as fichas em uma única área, excluindo as demais áreas ou deixando-as em segundo plano. Esta não é uma forma saudável de organizar a própria vida, pois se algo não der certo, por exemplo, se ocorrer a perda do emprego, o fim do casamento, a desilusão com a religião ou a perda da beleza física, fica-se sem chão para pisar, sem ter em que se apoiar. É como diz o velho ditado: "Não se deve colocar todos os ovos na mesma cesta".
Uma maneira mais saudável de organizar a própria vida, a própria "pizza", é dividi-la em várias fatias, de igual tamanho, deixando-se uma fatia para cada área da vida: área familiar, afetiva, emocional, profissional, social (que inclui os amigos, os grupos dos quais fazemos parte), lazer (aquilo que fazemos unicamente por prazer, diversão, para "recarregar a bateria"), área física (que inclui cuidados com a saúde, atividade física e cuidados com o corpo, com a aparência, alimentação, sono), área espiritual, área financeira (como administramos nossos recursos), sexual, intelectual (cursos, livros, novas aprendizagens, manter-se atualizado) e a área da cidadania (como contribuímos com nosso bairro, nossa cidade, nosso país. Aqui inclui-se o trabalho voluntário, cujo princípio é: existe algo que você possui ou que sabe fazer e que poderá ser útil a alguém que está precisando disso neste exato momento). Portanto, isto é Qualidade de Vida, esta divisão da pizza em muitas fatias, todas as áreas de nossa vida tendo um espaço e sendo igualmente consideradas e cuidadas.
Esta é uma forma mais equilibrada e saudável de gerenciar a própria vida porque quando ocorrer um problema com determinada área, teremos todas as outras para podermos nos apoiar. Por exemplo, a pessoa que perdeu o emprego não estará sozinha: terá a família, os amigos, a religião, o trabalho voluntário, o lazer, e etc., em que se apoiar. Fica inclusive mais fácil conseguir um novo emprego quando se participa de outros ambientes, quando se tem outros vínculos, uma rede de contatos.
E você, leitor? Como está a sua "pizza"? Quantos pedaços ela tem? Será que algumas áreas invadiram o espaço de outras? Será que o trabalho, por exemplo, ocupa um espaço enorme em sua vida, espaço este que está sendo roubado de outras áreas, que são igualmente importantes (família, amigos, lazer, etc..)? Será que há áreas que foram esquecidas, que estão como canteiros abandonados, não cultivados? O que fazer se este for o seu caso?
Abordaremos esta questão num próximo artigo, quando falaremos sobre Projeto de Vida, algo que poderá rearranjar sua "pizza" e dar novo sentido e organização à sua vida.
E não fique muito surpreso se nas próximas vezes em que for comer pizza começar a "pensar na vida" - ou se na mesa ao lado houver alguém muito pensativo olhando para a pizza recém servida...








Nelly Penteado é psicóloga, psicoterapeuta, Master Practitioner em Programação Neurolingüística (SBPNL), pós-graduada em Terapia Comportamental e Cognitiva (USP) e em Psicopedagogia (UNICAMP).




PNL, Terapia Comport. e Cognitiva, Psicopedagogia e Desenvolvimento Pessoal.

É com imenso prazer que inauguro meu blog, onde pretendo postar novos artigos, dicas, reflexões, metáforas e materiais, de forma mais interativa que no site.
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